Piududo, o menino beija-flor
Livro resgata a história de Guido, menino Boe-Bororo adotado pelo presidente da Província de Mato Grosso e sua esposa, a escritora Maria do Carmo de Mello Rego, no final do século XIX

Nesta quarta-feira, dia 9, no Espaço do Saber da Biblioteca do Sesc Arsenal, bairro do Porto, em Cuiabá, a Entrelinhas Editora lança livro infantojuvenil de Anna Maria Ribeiro F. M. da Costa e Idelfonso Boro Kuoda, com belas ilustrações de Adriana Milano.
A história do menino Piududo, indígena Boe-Bororo, foi registrada por Maria do Carmo de Mello Rego. Ela escreveu Guido: páginas de dor (1895), Lembranças de Matto Grosso (1885), Rosa, a Bororo (1895), Batismo dos Bororos e Artefactos indígenas de Mato Grosso (1899). Este último livro resultou na formação de uma coleção etnográfica, doada por legado testamentário ao Museu Nacional, Rio de Janeiro.
Mato Grosso é o cenário do conjunto da obra de Maria do Carmo de Mello Rego. A história de Piududo, que em língua Boe-Bororo quer dizer beija-flor, se entrelaça à sua. Ao se casar com Francisco Raphael de Mello Rego (1823-1904), então comandante do Exército Brasileiro na Guerra do Paraguai, e, mais tarde, presidente da Província de Mato Grosso, chegou às terras mato-grossenses, permanecendo por um curto período (1887 a 1889). Nesse tempo passou a ter grande interesse pela descrição e interpretação dos modos de vida dos habitantes de Mato Grosso, dentre eles os indígenas Boe-Bororo, Aliti e Nambikwara.
“A história de Piududo também se entrelaça à de Mato Grosso. Em fins da década de 1880, Piududo integrou a família Mello Rego após o violento processo de colonização efetivado pelas expedições lideradas por Antônio José Duarte contra seu povo. Descalço, vestido com camisa de chita e calça azul, chegou em Cuiabá no dia 12 de junho de 1888. Sua dentição indicava que o menino teria nascido por volta de 1881. Sem falar palavra alguma da língua de sua nova família, passou a viver no Palácio Presidencial, moradia de presidentes e governadores de Mato Grosso. Foi novamente batizado: Guido de Mello Rego. A escravidão chegou ao fim, depois de mais de 300 anos, depois de quase 5 milhões de escravos terem chegado ao Brasil. O Império do Brasil chegou ao fim. A República foi instaurada. A família imperial deixou o Brasil. Piududo deixou Mato Grosso. Sentiu-se fora do seu meio e não se adaptou. Foi morar na aldeia Sol Nascente…” – nos conta a autora Anna Maria.
O livro Piududo, o menino beija-flor destina-se ao público infantil e juvenil. Ao narrar a curta trajetória do menino indígena, que faleceu aos 9 anos, busca evidenciar a cultura Boe-Bororo que outrora ocupou uma vasta região onde se situa atualmente a capital mato-grossense e grande parte do Estado de Mato Grosso. É uma história pouco conhecida. A narrativa fornece um conjunto de elementos que complementa a formação cidadã de crianças e jovens para que possam compreender seu papel como agentes transformadores de sua sociedade, especialmente no que diz respeito ao ser diferente, à defesa da diversidade cultural, característica marcante do território brasileiro.
“Com base nos escritos de Maria do Carmo de Mello Rego, Piududo, o menino beija-flor contempla aspectos históricos, sociais e culturais de uma parte da população brasileira. Deseja contribuir com a diminuição do preconceito em relação à pessoa indígena, infelizmente ainda verificado com frequência por uma considerável parcela da população não indígena”, explica Anna Maria.
Atualmente, o povo Boe-Bororo ocupa terras indígenas a sudeste de Mato Grosso, em uma região que abrange as bacias hidrográficas do Paraguai e Tocantins-Araguaia, localizada nos municípios de Poxoréu, General Carneiro, Barra do Garças, Barão de Melgaço, Novo São Joaquim, Rondonópolis Pedra Preta e Santo Antônio do Leverger.
Piududo, o menino beija-flor alavanca meios de revitalizar valores humanísticos e de responsabilidade social e ambiental no seio da sociedade brasileira. Espera-se que o livro contribua para o fortalecimento do respeito à pluralidade cultural e aos diferentes modos de viver, bem como a relação existente entre homem-natureza. Também deseja contribuir para a efetivação das ações afirmativas, como a Lei 11.645/2008, em reconhecimento de suas histórias, culturas e configuração étnica brasileira – “conhecer para respeitar”. Uma educação escolar cidadã consiste em um percurso em terras férteis para semear ações de promoção da “cultura pela paz”, em sintonia com o que rege a Constituição da República Federativa do Brasil.
SOBRE OS AUTORES

Anna Maria Ribeiro F. M. da Costa nasceu no Rio de Janeiro. Desde pequena, gosta de ler. Na escuridão da noite, antes de dormir, depois de tanto ler e decorar as histórias dos livros, as recitava para a família, com direito a modulação de voz e tudo. O tempo passando… Em Mato Grosso, conheceu Edu na primavera de 1982, em vivências com o povo Nambikwara do Cerrado, com quem morou por vários anos. Foi nesse tempo que passou a ser considerada uma waluta, apelido que recebeu de um indígena, ao observar seus hábitos alimentares. O tempo passando… Chegaram Theo e Loyuá. De uns tempos pra cá, a família vem aumentando… Primeiro, Carlinha. Depois Paulo. De Theo-Carlinha, Luiz Felipe, o netinho manauara. Admirou-se tanto pelos povos indígenas que continua sua caminhada a estudar e contar histórias para adultos e crianças sobre seus modos tão diferentes de viver. Publicou diversos livros com os seus estudos sobre os indígenas de Mato Grosso, entre outras produções literárias. Foi eleita para a Academia Mato-grossense de Letras e tomará posse no dia 11 de julho.
Idelfonso Boro Kuoda nasceu na aldeia Meruri, município de General Carneiro, Mato Grosso. A luz dos conhecimentos tradicionais vem conduzindo sua vida desde menino e sob o encanto da sabedoria Boe-Bororo. Na aldeia, em noites tranquilas, ouve histórias Boe contadas por sua mãe, Maria Pedrosa Urugureudo, que gosta de cantar com os anciões nos rituais. Idelfonso e Keilaforam presenteados com cinco filhos: Kemilly, Isabela, Igor, Pablo e Thomas. O tempo em família vem mostrando a sua importância como educador indígena e admirador dos saberes tradicionais.

Adriana é paranaense, nasceu em Lupionópolis. Veio para Mato Grosso aos 14 anos. Quando aqui chegou se sentiu um peixe fora d´água: a cultura era diferente, os amigos eram poucos. Mas, como boa leonina que é, não demorou muito para se sentir em casa. Aqui se casou com Rai Reis, teve dois filhos que são a razão do seu viver. Ama Cuiabá. Ama o montão de amigos que aqui conquistou. Sempre teve muita afinidade com as artes manuais. Começou sua carreira artística criando relicários, cuja inspiração vem da fé, sincretismos, diversidades e liberdade religiosa. É uma apaixonada pelo design, pela moda, pela vida. Hoje se dedica aos desenhos e à pintura.
SERVIÇO
Lançamento do livro Piududo, o menino beija-flor, de Anna Maria Ribeiro F. M. Costa e Idelfonso Boro Kuoda, ilustrado por Adriana Milano e publicado pela Entrelinhas Editora. (Texto inspirado nos escritos oitocentistas de Maria do Carmo de Mello Rego).
Local: Espaço do Saber na Biblioteca do Sesc Arsenal – Rua 13 de Junho, no bairro do Porto, em Cuiabá, a partir das 18 horas.
Valor do investimento: R$ 65 reais, no lançamento.
